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Tribunal de Pequim permite que mãe herde direitos de uso de 87 contas de jogo

A sentença obrigou uma operadora a alterar para o nome da mãe do jogador falecido o cadastro de identidade vinculado às contas. O julgamento é definitivo entre as partes, mas não criou uma lei nacional nem tornou automaticamente herdável qualquer biblioteca digital.

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Victor Habib LantyerAdvogado, professor, autor e pesquisador
Publicado em16 de julho de 2026
Leitura7 min
Nívelintermediário
Ilustração de contas de jogos digitais sendo transferidas em uma sucessão
Ilustração editorial sobre sucessão de direitos de uso em contas digitais.

Em síntese

O Tribunal Popular do Distrito de Shijingshan reconheceu que os direitos de uso de 87 contas de jogo tinham conteúdo patrimonial e poderiam ser herdados pela mãe do usuário falecido. A sentença é definitiva entre as partes, mas não transferiu a propriedade do jogo nem criou uma regra nacional para todos os ativos digitais.

Perguntas que este artigo responde:

  • 1O que o tribunal de Pequim decidiu sobre as 87 contas de jogo?
  • 2A decisão tornou qualquer conta digital herdável na China?
  • 3Qual é a diferença entre herdar direitos de uso e ser proprietário do jogo?
  • 4Como o caso se relaciona com os projetos brasileiros sobre herança digital?

O Tribunal Popular do Distrito de Shijingshan, em Pequim, reconheceu que os direitos de uso ligados a 87 contas de um jogador falecido tinham conteúdo patrimonial e poderiam integrar sua herança. A empresa responsável pelo jogo foi condenada a auxiliar na alteração do cadastro de identidade para a mãe do usuário no prazo de 15 dias após a entrada em vigor da sentença.

Nenhuma das partes recorreu, segundo relatos publicados com informações do próprio tribunal. A formulação exige, porém, duas cautelas: a mãe não recebeu a propriedade do jogo nem dos sistemas da operadora; e a decisão vale para um processo concreto, cujos número, inteiro teor, empresa envolvida e título do jogo não foram divulgados.

Em síntese

  • O jogador, identificado apenas como Gu, morreu em 30 de maio de 2025 e deixou 87 contas submetidas a verificação de identidade.
  • O tribunal reconheceu como herdáveis os direitos de uso previstos no contrato, e não a propriedade da plataforma ou de toda a tecnologia associada ao jogo.
  • A representante legal da filha do falecido apresentou declaração escrita de renúncia; o pai de Gu havia morrido antes dele. A corte considerou a mãe, Chen, a única herdeira legal remanescente desses direitos.
  • O contrato atribuía à empresa a titularidade de determinados elementos digitais, mas não excluía expressamente a sucessão dos direitos de uso após a morte.
  • A sentença tornou-se definitiva entre as partes porque não houve recurso. Ela não funciona como precedente nacional vinculante para toda conta digital na China.

O conflito entre propriedade da plataforma e direito do usuário

Gu havia criado as 87 contas em um jogo operado por uma empresa não identificada. Após sua morte, a mãe pediu que os dados de identificação fossem alterados para que pudesse exercer os direitos associados às contas.

A operadora inicialmente argumentou que, conforme o contrato de usuário, os identificadores das contas, os objetos virtuais, os dados de backend e informações derivadas pertenciam à empresa. Ao jogador caberia apenas um direito limitado de uso. A companhia também sustentou que a verificação vinculava as contas à pessoa de Gu e, por isso, elas não deveriam entrar na herança.

O ponto contratual decisivo foi mais estreito do que sugerem manchetes sobre uma suposta derrota geral das plataformas. O acordo atribuía determinados direitos à operadora, mas não proibia expressamente que, após a morte, o direito de uso fosse sucedido por um herdeiro. Durante o processo, as duas partes reconheceram que os direitos de uso previstos no contrato poderiam ser herdados, entendimento que o tribunal considerou compatível com a legislação.

Isso significa que a corte não anulou uma cláusula específica que proibisse a sucessão nem declarou inválidas, em bloco, todas as restrições de transferência adotadas por plataformas. O julgamento resolveu uma combinação particular de contrato, natureza das contas e situação familiar.

Por que as contas foram tratadas como patrimônio

Segundo a fundamentação divulgada, contas, personagens, equipamentos, objetos e moedas virtuais existem como dados, mas podem carregar valor de uso e valor econômico. No caso, o jogador havia investido tempo, esforço e dinheiro na formação das contas, cujos elementos também poderiam ter utilidade e valor de circulação dentro do ecossistema do jogo.

O tribunal entendeu que a verificação de identidade criava uma ligação pessoal, mas funcionava principalmente como requisito de controle do usuário. Ela não transformava o direito de uso em um direito de personalidade inseparável de Gu e, portanto, necessariamente extinto com sua morte.

Em comentário divulgado após o julgamento, a corte distinguiu ativos virtuais predominantemente econômicos de contas sociais, nas quais mensagens, relações pessoais e informações de terceiros ocupam posição central. Essa separação é essencial: o raciocínio aplicado a contas de jogo não autoriza concluir que familiares possam acessar automaticamente e-mails, conversas privadas, fotografias em nuvem ou perfis de redes sociais.

O que, exatamente, foi herdado

A mãe passou a exercer os direitos de uso das contas nos limites do contrato. A decisão não transferiu a ela a propriedade do jogo, dos servidores, da plataforma ou dos elementos que o contrato reservava à operadora.

Essa distinção expõe uma característica estrutural da economia digital. Muitos bens que o consumidor percebe como seus são, juridicamente, acessos ou posições contratuais mantidos em infraestrutura controlada por terceiros. Mesmo quando um direito de uso é transmissível, seu valor depende da continuidade do serviço, das regras da plataforma e da possibilidade técnica de acesso.

Por isso, a frase "a China decidiu que jogos digitais podem ser herdados" é ampla demais. O tribunal reconheceu a sucessão de direitos de uso ligados a 87 contas específicas. Não decidiu sobre toda biblioteca de jogos, todo conteúdo licenciado ou qualquer espécie de ativo digital.

A base jurídica e seus limites

A corte aplicou os artigos 127 e 1122 do Código Civil chinês. O artigo 127 determina que, quando houver normas sobre proteção de dados e propriedade virtual de rede, elas devem ser observadas. Trata-se de uma cláusula geral de reconhecimento e proteção, não de um regime completo de herança digital.

O artigo 1122 define a herança como o patrimônio pessoal lícito deixado por uma pessoa ao morrer, excluindo bens e direitos que a lei ou sua própria natureza tornem intransmissíveis. O tribunal combinou essas disposições para concluir que o componente patrimonial dos direitos de uso não estava legalmente excluído da sucessão.

Desde 1º de janeiro de 2026, a classificação oficial de causas civis da Suprema Corte Popular da China inclui categorias próprias para disputas sobre dados e propriedade virtual de rede. A alteração dá maior visibilidade processual ao tema, mas não estabelece que todo ativo digital seja herdável nem substitui a análise de cada contrato e de cada tipo de conta.

O que ainda não sabemos

Os relatos disponíveis não identificam o jogo, a empresa, o valor das contas ou o número do processo. O inteiro teor da sentença não foi localizado em base pública. Também não há confirmação pública de que a alteração cadastral tenha sido efetivamente concluída após o prazo judicial.

Essas lacunas impedem uma avaliação completa dos fundamentos e desaconselham previsões sobre casos com cláusulas expressas de proibição, herdeiros em conflito, contas compartilhadas ou grande volume de comunicações privadas.

Por que o caso interessa ao Brasil

A sentença chinesa não produz efeito jurídico direto no Brasil. O problema, porém, é o mesmo: separar ativos com valor econômico de conteúdos ligados à intimidade, à memória e aos dados de terceiros.

No Senado brasileiro, os projetos de lei 365/2022 e 3.053/2026 passaram a tramitar em conjunto e, na última atualização legislativa disponível em 13 de julho de 2026, aguardavam a designação de relator na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. As propostas tratam da herança digital, da destinação de conteúdos e ativos e das escolhas que o usuário poderá registrar perante as plataformas. Continuam sendo projetos, não regras vigentes.

Essa distinção também conversa com debates brasileiros sobre proteção de dados e direitos da personalidade. A sucessão de uma conta economicamente valiosa não elimina riscos de privacidade, especialmente quando o mesmo ambiente digital contém dados pessoais, comunicações ou informações de terceiros. Para aprofundar esse ponto, veja também a análise do Lantyer sobre Teoria do Mosaico na LGPD e o estudo sobre contratos de adesão, imagem e plataformas digitais.

Para empresas, o caso reforça a necessidade de procedimentos que verifiquem o óbito, a legitimidade dos sucessores, eventuais renúncias e a natureza de cada conteúdo. Para usuários, mostra que uma lista organizada de ativos e instruções formais é mais segura do que o simples compartilhamento de senhas, prática que pode violar contratos, comprometer a segurança e expor dados de outras pessoas.

O que acontece agora

A sentença já é definitiva entre as partes. A operadora foi condenada a concluir a alteração do cadastro de identidade em até 15 dias após a eficácia do julgamento, mas o cumprimento da ordem não foi confirmado nas fontes disponíveis.

O impacto mais amplo dependerá de decisões posteriores, das políticas adotadas pelas plataformas e da eventual criação de regras mais detalhadas. O caso não resolve a herança digital. Ele mostra, com rara nitidez, onde está o conflito: entre o patrimônio construído pelo usuário e a infraestrutura que continua nas mãos da plataforma.

Referências

Perguntas frequentes

Toda conta digital pode ser herdada na China?

Não. A decisão tratou de 87 contas de jogo específicas, com valor econômico e sem cláusula contratual expressa que excluísse a sucessão dos direitos de uso. Contas sociais, mensagens e conteúdos com dados de terceiros podem exigir análise diferente.

O que a mãe herdou exatamente?

Ela herdou a possibilidade de exercer os direitos de uso das contas nos limites do contrato. A decisão não transferiu a propriedade do jogo, dos servidores, da plataforma ou dos elementos reservados à operadora.

A decisão vale no Brasil?

Não. É uma sentença chinesa sem efeito jurídico direto no país. Sua relevância é comparativa e ajuda a expor problemas que também estão em debate no Congresso brasileiro.

A família deve usar a senha do falecido?

Não como regra. O acesso informal pode violar contratos, comprometer a segurança e expor dados de terceiros. O procedimento adequado depende da plataforma e da legislação aplicável.

Principais Pontos

  • A mãe herdou direitos de uso previstos no contrato, não a propriedade do jogo ou da plataforma.

  • O contrato não excluía expressamente a sucessão e, durante o processo, as partes reconheceram a possibilidade de herança dos direitos de uso.

  • A sentença é definitiva apenas entre as partes e não constitui uma regra nacional vinculante para todo ativo digital.

  • Contas com valor econômico exigem tratamento diferente de mensagens, fotografias e dados pessoais.

Termos e Entidades Chave

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Para citar ou referenciar:

VICTOR HABIB LANTYER. Tribunal de Pequim permite que mãe herde direitos de uso de 87 contas de jogo. Lantyer Educacional, 2026. Disponível em: https://lantyer.com.br/noticias/china-heranca-contas-de-jogo/

Este conteúdo tem finalidade informativa e educacional. Não substitui aconselhamento jurídico específico para casos concretos.

Notícia fechada em 16 de julho de 2026. O inteiro teor da sentença, o número do processo, a empresa, o jogo e a confirmação de cumprimento da ordem não estavam publicamente disponíveis nas fontes consultadas.